26 agosto 2013

Para evitar demissões, empresas japonesas confinam funcionários em 'sala do tédio'


Shusaku Tani, 51, é funcionário na fábrica da Sony em Tagajo (Japão), mas na realidade não trabalha. 

Há mais de dois anos, ele vai a uma pequena sala, ocupa seu lugar e passa o tempo lendo jornais, navegando na web e estudando manuais de engenharia que havia guardado na época de faculdade. 

No fim de cada dia, apresenta um relatório de atividades. 


A Sony, que o emprega há 32 anos, o confinou nessa sala porque não tem como se livrar dele. 

A empresa fechou sua vaga de trabalho, mas Tani se recusou a aceitar a aposentadoria antecipada que lhe foi oferecida -o que é seu direito de acordo com as leis trabalhistas do Japão. 

"Não vou deixar o emprego", diz Tani. "Companhias não deveriam agir assim. 

É desumano."

Funcionário da Sony na 'sala do tédio'
Funcionário da Sony na 'sala do tédio'

Casos como o de Tani são exemplos de uma batalha cada vez mais intensa sobre as práticas de contratação e demissão do Japão, onde o emprego perpétuo por muito tempo foi a norma. 

A Sony deseja mudar esse cenário. 

O primeiro-ministro Shinzo Abe também; ele quer afrouxar as rígidas regras para demissão de funcionários de tempo integral. 

Os críticos de mudanças nas normas trabalhistas afirmam que existe algo de importante em jogo. 

Alertam que tornar as demissões mais fáceis pode destruir o tecido social japonês em nome de propiciar mais lucros às empresas, o que causaria desemprego em massa e uma elevação na disparidade de renda. 

Para um país que sempre se orgulhou de sua estabilidade e de sua distribuição de renda relativamente justa, uma mudança como essa seria inaceitável. 

"Não é esse o tipo de país que o Japão procura ser", disse Takaaki Matsuda, que comanda a divisão do sindicato da Sony em Sendai. 

Seria uma mudança radical. A combinação de emprego perpétuo, salário definido por senioridade e intensa lealdade da força de trabalho recebeu crédito pelo milagre econômico do pós-guerra no Japão, um período em que crescimento e estabilidade caminhavam juntos.

Mas quando a economia japonesa começou a tropeçar, nos primeiros anos da década de 1990, as companhias constataram que as rígidas práticas trabalhistas tornavam cortes impraticáveis. 

PELA JANELA
 
Os trabalhadores desnecessários se viram forçados a passar seus dias olhando pela janela do escritório, o que deu origem à expressão "madogiwa zoku", ou "a tribo que senta à janela". 

Os proponentes de mudanças nas leis de emprego apontam que as fortes proteções aos trabalhadores levaram empresas a realizar grandes reduções em suas contratações, o que reduz as oportunidades de muitos japoneses mais jovens. 

A Sony contratou apenas 160 graduados das universidades do país este ano, ante mil em 1991. 

As empresas também se ajustaram recorrendo a uma segunda classe de funcionários temporários, que podem demitir com mais facilidade. 

Arquivo INFOTRANSP