27 outubro 2013

Minha história: Inventor ganha na Justiça a autoria da frase "chamada a cobrar"


"Chamada a cobrar. Para aceitá-la, continue na linha após a identificação." 

A frase faz parte do sistema de ligação direta a cobrar, criado por Adenor Martins de Araújo, 72. 

Para ser reconhecido, foi preciso ir à Justiça contra a Telebras, para a qual a invenção era de domínio público. "Foi muita luta. 

Mas Davi venceu Golias."
*
Tudo surgiu de uma necessidade. Eu tinha crianças no colégio.

 A minha menina, de 11 anos, estudava no centro. Um dia, ela esqueceu o dinheiro do ônibus para voltar. 

Ela foi até a empresa da minha mulher, mas a mãe tinha saído. Pediu dinheiro emprestado, mas não deram. 

Sem ficha, ela não podia ligar para casa. 

Ficamos sem notícias. 

Ela esperou sentada numa galeria, sem almoço, até que a mãe chegou, às 14h. 

Tinha que encontrar uma solução. 

Não só para o caso dela, mas para emergências. 

Eu também viajava muito e procurava alternativas para falar com a família. 

Naquele tempo, os orelhões funcionavam com ficha telefônica, e nem sempre havia onde comprar. 

Ligações interurbanas eram até 40% mais caras, ficava constrangido se estivesse na casa de um amigo. 

Mas o único jeito de ligar a cobrar era via telefonista, numa fila que às vezes levava horas. 

Ficava indignado. Foi aí que comecei a fazer o projeto, à noite. 

Comecei a desenhar um circuito. Do papel, passei a um protótipo. 

Foi o primeiro serviço com mensagem gravada. Escrevi e pedi para um locutor gravar. 

A mensagem era a mesma, só foi cortada uma introdução. 

A original começava com "Você está recebendo uma ligação a cobrar". No outro lado: "Você está fazendo...". 

Fiz isso em duas fitas cassete, que tinham dois canais. Um com a voz do locutor. Outro, um bip de sincronismo. 

Também tinha outros detalhes. Na ligação normal, se eu colocar o telefone no gancho, não te derrubo. A cobrar, precisava desligar no ato. 

 E depois botei o "9" para indicar um DDD a cobrar, invertendo a tarifação. 



Adenor Martins de Araújo, 72, mostra foto de homenagens pela sua invenção
Adenor Martins de Araújo, 72, mostra foto de homenagens pela sua invenção   
 
Para fazer tudo, ficava acordado até madrugada. 

Quando as coisas surgem, você tem que pôr em prática logo, antes que desanime. 

Levou dois meses para concluir o protótipo e testar. 

Quando vi que ia resolver o problema dos usuários, fiz uma carta para a Telesc, onde trabalhava, e pedi testes. 

Instalei o equipamento em Blumenau, no primeiro teste de campo, e perguntei a um diretor se ele queria fazer uma ligação nacional. 

Para minha surpresa, ele ligou para o ministro das Telecomunicações, Haroldo de Mattos, que estava no Rio. Considero essa a primeira ligação oficial a cobrar. 

Em 1982, começou a implantação do sistema, por Santa Catarina. Quando recebi a carta-patente, em 1984, ainda estavam implantando. 

Com a invenção, não teve mais telefonista, mesa interurbana, trabalho manual. 

O custo operacional das telefônicas caiu. 

O serviço teve aceitação imediata. Fui homenageado. Ministro, presidente da Telebrás e governador me cumprimentaram. E depois quiseram anular a patente. 

Foi aí que a luta na Justiça começou. Por lei, tinha direito de cobrar royalties e até exportar a tecnologia. 

Mas nunca ganhei nada. Só paguei. Se vir o que gastei, podia ser um cara rico [ri]. 

Também sofri pressão. Trabalhava na Telebrás e fui a Brasília gerenciar um projeto. 

Diziam que, se não entregasse a patente, iriam me mandar de volta a Florianópolis. 

Era o fim do regime militar. Sentia-me uma formiga pisoteada por um elefante. 

Fui transferido para Florianópolis. Tive que voltar sozinho, minha família depois. 

Foi difícil. Depois a situação melhorou, ocupei cargos de chefia, me aposentei. Também montei a minha empresa. Nunca parei de trabalhar. 

Desde que inventei o protótipo, já se passaram 33 anos, 25 na Justiça. No dia 1º, meu advogado me ligou, disse que estava saindo do julgamento [no STJ]. Fui reconhecido como o único inventor da chamada a cobrar. 

Usei muito meu sistema, e ainda uso. Antes era o problema da ficha [telefônica]. 

Hoje é o pré-pago. Mesmo com celular, sempre tem alguém que precisa usar. Os jovens vivem sem crédito, não é? 

OUTRO LADO
 
Procurada pela reportagem, a companhia Telebras informou que o caso é da época da antiga holding de mesmo nome, que foi desmembrada e vendida após ser privatizada, em 1998. 

A atual Telebras diz não ter envolvimento no processo, por ter sido recriada em 2010. 

Em Santa Catarina, a Telesc, empresa que fazia parte da Telebras, passou para o comando da antiga Brasil Telecom, hoje Oi. A Oi, por sua vez, afirmou que não comentaria o caso



http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2013/10/1362767-minha-historia-inventor-ganha-na-justica-a-autoria-da-frase-chamada-a-cobrar.shtml

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