02 novembro 2011

Trens urbanos circulam com metade da capacidade

O sistema de passageiros de trens urbanos do Rio Grande do Norte está operando com 50% de sua capacidade, desde o início da semana, para atender as duas linhas em atividade, a Sul [Parnamirim] e a Norte [Ceará-Mirim]. Por dia, a Companhia Brasileira de Trens Urbanos [CBTU] está transportando, em média, 5 mil passageiros - quando o fluxo normal é de 9 mil pessoas/dia, que utiliza o sistema ao custo de R$ 0,50 a passagem.
A CBTU confirma que uma das três locomotivas que estão quebradas, deve voltar a funcionar no próximo dia 5 de novembroA CBTU confirma que uma das três locomotivas que estão quebradas, deve voltar a funcionar no próximo dia 5 de novembro
Isso acontece porque das quatro locomotivas da CBTU, apenas uma está funcionando. As outras três estão quebradas, recolhidas à oficina para manutenção. Ontem, o superintendente em exercício da companhia, Flávio Cordeiro, informou que o cronograma de viagens precisou ser reordenado. O número de viagens foi reduzido pela metade, de 24 para 12, e as viagens estão sendo iniciadas e finalizadas com atraso em torno de 15 minutos.

"Reorganizamos as viagens, priorizando os horários de alta demanda. Com uma locomotiva só é impossível manter o mesmo ritmo", afirmou. A mesma locomotiva, com cinco vagões, está fazendo os percursos das linhas Norte e Sul. Pra hoje e amanhã, a CBTU realiza oito viagens na Linha Sul (Parnamirim) e quatro na Linha Norte (Ceará-Mirim), contabilizando o trajeto ida e volta. No sábado, serão apenas oito viagens nas duas linhas em atividade.

"Estamos dando atenção aos horários de pico, nas duas pontas, para atender a população. E ao mesmo tempo tentando agilizar a manutenção de uma das locomotivas quebradas", afirmou Flávio Cordeiro. Ele admite que se essa locomotiva quebra, o sistema entra em colapso. A previsão da CBTU é de que somente a partir do dia 5 de novembro, uma segunda locomotiva saia da oficina de manutenção e entre em operação.

A máquina tem problema no motor, e a CBTU espera a chegada de uma peça para que o trabalho de manutenção seja concluído. "O fornecedor se comprometeu a nos enviar a peça em dez dias, a contar de ontem", adiantou Flávio Cordeiro. A terceira locomotiva só deve sair da oficina em dezembro, segundo Flávio Cordeiro. Segundo ele, no orçamento 2011, a CBTU destinou R$ 1 milhão para manutenção.

Flávio Cordeiro negou descaso e garantiu que a CBTU no Estado tem um planejamento de manutenção preventiva e corretiva, constante, e que a situação se agravou pela demora na aquisição de peças. Atualmente, a manutenção das locomotivas é terceirizada e as empresas vencedoras da última licitação, realizada em 2010, para fornecimento de peças não estão cumprindo o cronograma de entrega.

De acordo com a peça, a entrega deve ser feita em 30, 60 ou 90 dias da solicitação, o que não vem acontecendo. "O problema é que há deficiência na aquisição de peças e as empresas estão demorando na entrega", disse. Segundo Flávio Cordeiro, algumas peças estão em falta no mercado nacional, e a empresa precisa recorrer a  Bombardier [fabricante de locomotivas].

A situação é a mesma na Paraíba. "Tanto lá, quanto aqui as empresas vencedoras não entregaram nem a metade das peças solicitadas este ano". O superintendente em exercício da CBTU explicou que, hoje, é inviável a compra de novas locomotivas movidas à diesel [uma chega a custar em torno R$ 1 milhão] devido ao alto custo de manutenção.

Por isso, o projeto de modernização prioriza o VLT [Veículo Leve Sobre Trilhos], uma espécie de metrô de superfície. O investimento será da ordem de R$ 136,9 milhões, para a primeira etapa [Linha Ribeira/Extremoz]. Os projetos básico e executivo devem ser concluídos em 2012 e até a Copa 2014 o VLT entrará em operação.

Segundo Flávio haverá necessidade de adequações nas 22 estações localizadas ao longo dos 56,2 km do sistema, em virtude de o VLT ser um veículo mais baixo. "O foco da modernização é o VLT porque além de ser mais econômico, em termos de manutenção, é mais leve e tem um impacto ambiental menor".

Cada VLT pode transportar de 300 a 400 pessoas, por viagem, num intervalo de 12 minutos, da Ribeira até Extremoz. Os trens convencionais transportam, em média, 150 pessoas por vagão [750 passageiros num trem de cinco vagões], fazendo o mesmo percurso em 52 minutos [tempo médio estimado pela CBTU]. A expectativa é de que esse novo sistema chegue a transportar até 50 mil passageiros.

Sindicato denuncia precariedade do sistema

Um relatório elaborado em setembro pelo Sindicato dos Ferroviários do RN [Sintefern] denuncia a precária situação do sistema de trens urbanos de Natal. A entidade denuncia que, ao longo dos últimos 23 anos, não houve uma política de investimento para o transporte de passageiros, que interliga quatro cidades [Natal, Parnamirim, Ceará Mirim e Extremoz].

Entre os problemas, o Sintefern aponta passagens de níveis avariadas, alargamento de bitolas [largura determinada pela distância entre as faces interiores das cabeças de dois trilhos]; trilhos sucateados e desgastados; locomotivas sucateadas e falta de pessoal qualificado em manutenção da via férrea. O tesoureiro do Sintefern, Jaime Canela, disse que "dentro das atuais condições, a CBTU opera milagre". Segundo ele, na oficina faltam peças e ferramentas.

"A empresa não tem uma peça sobressalente. Hoje, duas das quatro locomotivas viraram estoque de peças para reposição", denuncia. Além disso, o Sintefern denuncia, no relatório, que dos vinte carros de passageiros [vagões], cinco estão na composição da linha norte; três na linha sul; sete sucateados; um em manutenção; dois aguardam reforma e outros dois estão sem condições de tráfego pois a empresa que os reformou entregou sem o sistema de freios.

Segundo ele, a locomotiva 6017 [a única que funcionando] opera em precárias condições. "Já teve dia que de a companhia suspender o tráfego porque as duas locomotivas em operação, na época, estavam quebradas", afirmou Jaime Canela. Ele não soube precisar as datas em que esse "quebra-quebra" ocorreu. O relatório também aponta situação precária nas 21 estações, com iluminação precária, insegurança e muros de proteção destruídos.

Canela disse que falta planejamento e melhor distribuição dos recursos. "O problema hoje é que falta poder de barganha para a superintendência local e vontade de resolver os problemas, que terminam se avolumando". O relatório do Sintefern foi protocolado na Presidência da República, junto aos parlamentares do Estado e na presidência da CBTU.

O sindicato  critica ainda a compra de equipamentos supérfluos, como caminhão muck, trator, prensa, grupo gerador, torno mecânico, uma L200 e computadores modernos. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE o superintendente em exercício da CBTU, Flávio Cordeiro, justificou essas aquisições, que segundo ele, são importantes no trabalho de manutenção prévia.

"São equipamentos, como o caminhão muck, usados para a manutenção de trilhos; renovação de dormentes e colocação de brita ao longo da via permanente. A L200, por exemplo, é usada em trechos onde veículos menores não chegariam, para que a equipe possa fazer recuperação de alguma avaria, ou mesmo deslocar passageiros, quando há quebra de alguma locomotiva".

Já o torno mecânico, disse ele, é usado na recuperação de peças. O sindicato denunciou que essa máquina estaria subutilizada por não haver pessoal treinado para utilizá-la. No país, apenas três cidades - Natal, João Pessoa e Maceió utilizam o sistema de trens convencionais, movidos à diesel. As locomotivas do sistema férreo potiguar são da década de 60.

 http://tribunadonorte.com.br/noticia/trens-urbanos-circulam-com-metade-da-capacidade/200709

Arquivo INFOTRANSP